Meu céu do Atacama

Eu não pedi muito. Vinte e cinco anos. É o mínimo que se espera de alguém que chega invadindo nosso espaço, nosso tempo, nossas camas e, sobretudo, nossos corações.
Acontece que não, você resolveu partir com quase 16. Eu devia estar furiosa. “Pê da vida” mesmo. Contudo, não consigo, porque estou ocupada demais tentando respirar com esse buraco que você deixou no ar.
Não foi falta de aviso. Contei nos dedos. Olhei nos seus olhos – aqueles dois olhões castanhos que pareciam prometer tudo – e disse: “Vinte e cinco anos, fechou? Se você morrer antes disso, a tata jura que te mata!”. Então você lambeu meu nariz, o que tomei como um contrato assinado.
E aqui estou eu, tentando me convencer de que melhor assim. Não há mais sofrimento, e você deve ter outras coisas mais legais que fazer – caçar borboletas no além-vida, ser tratada como rainha em algum lugar onde o céu é feito de bifinhos e mantas quentinhas.
É um vazio tão absurdamente grande que quase dá vontade de rir, sabe? Porque a gente faz esses contratos ridículos com os bichinhos – promete que vai brincar de bolinha para sempre, que vai dividir o último pedaço de pizza, que vai comprar caminhas novas todo ano – e esquece que a parte deles é simplesmente ficar. Só isso. Ficar o suficiente pra gente achar que é pra sempre, mesmo que pra sempre seja tempo demais.
Se eu soubesse que o contrato era fajuto, eu teria feito menos planos e mais cafuné em você, Izzie. Teria saído pra passear na chuva e deixado você fazer xixi por tudo sem reclamar. Teria dado os pedaços de pizza sem ficar com peso na consciência. Afinal, agora não adianta nada esse estoque de arrependimentos. No entanto, então eu me dou conta de que, sim, você já tinha vivido uma eternidade. Pelo menos, dentro de nós.
Você foi um presente. Desses que vêm embrulhados em silêncio e amor, depois que a mãe Cida, minha avó virou saudade. Foi presente de Deus. Não tenho dúvidas… Chegando no exato momento em que eu não enxergava mais saída. Quando tudo parecia escuro demais, triste demais, sem horizonte.
E aí veio você. Pequena, peluda, com aquele olhar que dizia: “Eu tô aqui, tá?”. E estava. Sempre. Nos dias bons e nos insuportáveis. Foi por isto que chamei você, desde cedo, de “minha constelação”: porque iluminou o céu escuro em que a morte da minha avó tinha nos enfiado. Um pontinho de luz fiel, constante, que latia baixo e amava alto.
Depois da minha viagem ao Deserto do Atacama — com aquele céu que faz a gente se sentir minúsculo e, ao mesmo tempo, acolhido pelo universo —, achei que tinha achado o céu mais bonito do mundo. Mas voltei pra casa, olhei pra você, e percebi que não: o céu mais bonito estava ali: meu próprio céu do Atacama, com focinho gelado e alma quente.
Nos dois meses que passou apenas comigo e o Rapha, enquanto a mãe viajava, já ceguinha, você esbarrava nas paredes do apartamento — paredes recém-pintadas, diga-se, há pouco mais de nove meses. Mas ali estão agora as suas marcas, pequenas manchas na altura exata do corpinho que andava meio sem rumo, mas cheio de vontade de ficar perto. E fico sem saber se quero mesmo repintar. Sempre vair cedo demais pra apagar os vestígios ou pra deixar de esbarrar em você.
Há quem diga que os cães não têm alma e, portanto, não vão pro céu. Que são só bicho, só instinto, só latido e pêlo.
No entanto, eu penso: como assim, “só”? Como pode não ter alma quem ensinou tanta coisa sem falar nada? Quem cuidou de mim quando eu nem sabia mais cuidar de mim? Quem me amou inteira, até quando eu mesma me queria ou me enxergava só pela metade?
Se existe um céu — e existe, sim —, não consigo pensar em alguém que o mereça mais do que você. Porque se alma é aquilo que nos torna mais luz do que matéria, então, minha pequena, você era feita só disto: alma pura.
E agora, quando olho pros cômodos da casa e não vejo mais a constelação de antes, eu fecho os olhos e imagino o céu, porque sei: você virou parte dele de fato agora, e quem ilumina a gente por dentro nunca desaparece de verdade. Só muda de lugar. Só volta pra casa…